Ivan, o terrí(r)vel
Gilberto Gil? O pior ministro da Cultura que o país já teve. Walter Salles? João Moreira Salles? Filhos de um banqueiro censor que se julgam artistas. Eduardo Coutinho? O pior cineasta do Brasil. Pedro Cardoso? Um globete que não entende nada de cinema e resolveu dar uma de moralista depois que comeram sua mulher. Governo Lula? Uma farsa.
Poucos ícones permanecem de pé após dez minutos de entrevista com Ivan Cardoso. Ao final, a fumaça da saraivada retórica ainda paira em meio a canapés, refrigerantes e proseccos do centro de convenções do shopping Frei Caneca quando o cineasta se prepara para autografar mais um exemplar da biografia O Mestre do Terrir, depoimento ao pesquisador Remier lançado pela coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
Longe dos cinemas no Brasil, Ivan Cardoso mostra seus filmes até na FinlândiaCalvo e sorridente, metido numa camisa preta coberta por estampas de teias de aranha estilizadas, Ivan remói a caneta nas mãos diante da página do livro destinada ao autógrafo. Faz algumas perguntas ao comprador do livro: como se chama, do que gosta, essa camiseta, por que está usando? Pensa mais um pouco e em seguida cobre a página com uma longa dedicatória pavimentada com os jogos verbais que adora. No autógrafo para o dono deste boteco, Ivan prefere brincar com os fumos mefistofélicos do meu nome:
Sobre sua mesa, ao lado dos livros, Ivan expõe quatro DVDs de seus últimos filmes: A Marca do Terrir, O Sarcófago Macabro, O Segredo da Múmia, O Escorpião Escarlate. Cópias caseiras, sem capa, de filmes que em sua maioria nunca foram lançados oficialmente em DVD, ao lado de um bilhete de Vende-se rabiscado com canetinha hidrocor.
— Quatro filmes por cem reais! — anuncia. E constata: — Virei pirata de mim mesmo.
Até a hora em que estive por lá, ninguém comprou os filmes — nem eu, que estava sem grana.A chegada de uma senhora simpática e falante à fila de autógrafos revela que o esquecimento da obra de Ivan está restrita ao país onde ele nasceu. Ela é Betina Goldman, distribuidora internacional de filmes latino-americanos.
Boteco Sujo - Você já disse que pensou em forjar a própria morte para ser reconhecido. O lançamento dessa biografia mostra que você não precisou morrer para que isso acontecesse?
Boteco - Se você tivesse nascido em outro país, teria uma vida mais tranqüila?
Ivan - Já era rico. Rerrerrê (uma risadinha, curta e sinistra, que Ivan gosta de soltar em determinados momentos). Não precisava aqui ficar vendendo DVD e falando tanta barbaridade. Já estava com o meu boi na sombra. Porque aqui não gostam de cultura, só de falsos artistas. No Brasil, até banqueiro quer ser cineasta. Com o juro a essa altura, como é que o cara pode querer dizer que é artista? Inclusive, no dia em que quiserem fazer um debate, estou à disposição. Podem reunir a tropa de elite toda: os irmãos Salles, o O2, o José Padilha. Todos adeptos da política Bush contra o cinema, contra as drogas e contra o homem. Acabaram com o mundo, acabaram até com o capitalismo. Como é que um banqueiro pode se fingir que é pobre? Isso não existe.
Boteco - Qual foi a pior coisa que a família Salles fez: os juros do Unibanco ou os filmes?
Ivan - Eu náo sei se é pior ter um banco ou ser ladrão de banco. Agora, o pai deles [dos irmãos Salles] censurou Nosferatu do Brasil no MAM. A minha bronca com eles é essa. Se fosse qualquer cineasta do Cinema Novo... Por que eles produziram Eduardo Pereira Coutinho? É o pior cineasta brasileiro. Você sabe, quando começou o Cinema Novo, quem fazia documentário? Cineastas que não tinham talento. Você pode perguntar isso para o Cacá Diegues, para o Gustavo Dahl, a qualquer dessa turma. Eu nem pensava em fazer cinema nessa época. Eu pensava em comprar ações do banco Moreira Salles. Eu pensava em ser banqueiro, não cineasta. Cineasta é muito pobre.
Boteco - Cineasta que faz documentário não tem talento?
Ivan - Contanto que ele não seja um documentarista, ele tem talento. Agora, um cara que é documentarista não pode ter talento. O melhor deles é o Sílvio Tendler, que fez Os Anos JK, o Jango. Eu preferia ficar sentindo cheiro de dólar a cheiro de pó.
Boteco - Como foi esse episódio da censura?
Ivan - Foi em 72. Na exposição do Carlos Vergara no Museu de Arte Moderna, estava passando Amor & Tara, Nosferatu do Brasil, Piratas do Sexo Voltam a Matar... Aí chegou aos ouvidos do embaixador Moreira Salles. Meus filmes não eram esquerdofrênicos, mas tinham cenas de lesbianismo, nudez, drogas. Naquela época, os diretores de instituições e colégios tinham muito medo da Censura e se tornavam subcensores. É a tal coisa. Pai censor, filho artista! Por que não vai ser bicheiro, dentista ou delegado de polícia? É mais legal. Cineasta não está com nada. Cinasta é para quem é pobre e tem que sonhar.
Boteco - Qual é a censura hoje?
Ivan - É econômica. Sempre foi. Eu não tenho banco, então não posso filmar. Quem tem banco continua filmando. Não vou ficar atrás de incentivo fiscal. Meu negócio é outro: meu negócio é arte. Tenho um arquivo fotográfico de 70 mil negativos. Eu dei sorte. Sou uma pessoa predestinada, porque quando tinha 16 anos conheci o Hélio Oiticica e ele me ensinou: "Ivan, tudo o que não pode ser feito pode". Agora, imagina você se o Hélio conhecesse um banqueiro cineasta? Ele mandava para a putaquepariu! Rerrerrê. Expulsava da casa dele. Não tinha papo. O Hélio não tinha nem conta em banco.
Boteco - Quando você conheceu o Hélio, ele te falou numa palestra que se você pichasse...
Ivan - ...a cara de um general era uma obra de arte. É. Aí o diretor do meu colégio interrompeu a palestra dele.
"Eu queria que o Pedro Cardoso comesse a Carla Camurati no cinema e o cara reclamou? Tem que dar um eletrochoque nele!"
Ivan - Adora. Não é esse o problema. (Começa a se desviar do tema, se perde e me leva junto.) Agora recentemente estive em Londres fazendo uma exposição de fotografia na embaixada do Brasil, e quem faz é uma pessoa muito legal, a Adriana Rouanet, filha do ex-ministro Sérgio Rouanet. O ex-ministro esteve presente na vernissage e veio me perguntar por que eu era um cineasta mais conhecido fora do que no Brasil. Eu devolveria a pergunta para ele. O único erro do Fernando Henrique foi ter entregue a cultura ao PT. O [Francisco] Weffort era ministro da Cultura, mas só falava português. Uma besta. Não obedecia nem ao que o Fernando Henrique mandava ele fazer. Por isso eu não filmei.
O coitado do Gilberto Gil, um ícone da música popular, um grande artista, um grande cantor, mas foi o pior ministro da Cultura que a gente teve. Ele não era ministro, era cantor. Já dizia o grande Toulouse-Lautrec: "Para que ser conde se pode ser cantor?". Para que ser ministro se pode ser cantor? O Gil misturou as estações e revelou um dark side dele horrivel. Ele cubanizou o cinema brasileiro. O que ele fez? Que eu saiba, nada.
Ivan - Pois é, uma tristeza, né? Um Cardoso falando uma coisa dessa. Tenho muito carinho pelo Pedro, fui eu que o lancei no cinema, foi o avô dele que me deu uma máquina fotográfica Leica. Agora, para falar essas besteiras todas, ele devia usar o sobrenome verdadeiro dele que é Martins Moreira, e não ficar manchando o meu, que é Cardoso. Porque Cardoso que é Cardoso é gostoso e gosta de ver mulher nua no cinema. Não tem essa história, não. No paraíso, Adão e Eva andavam nus. Se comeram a mulher do Pedro, é problema dele, não é problema meu. Eu não comi a mulher dele e gosto de ver mulher nua no cinema. Eu não como mulher de amigo, muito menos de primo.
Boteco - A Carla Camurati...
Ivan - Pô, eu queria que ele comesse a Carla Camurati no cinema e o cara reclamou? Tem que dar um eletrochoque nele!
Boteco - A Carla Camurati também reclamou da mesma cena do mesmo filme.
Ivan - Mas agora assinou um manifesto a favor da nudez. Fiquei muito feliz. A Carla Camurati evoluiu e o Pedro regrediu. A coisa mais bonita que Deus fez é a mulher. Desde que o mundo é mundo que o homem gosta de ver mulher nua, porra. Não sei de onde o Pedro tirou essa idéia. Acho que comeram a mulher dele, mesmo. Selton Mello é foda! É um globete. Hoje em dia só faz filme ator global, banqueiro, publicitário e fotógrafo ambicioso.
DVDs em versão caseira: "pirata de mim mesmo"
(foto Bianca Alves)
Boteco - Você não tem esperança de voltar a filmar?
Ivan - Eu não paro de filmar. Estou com a minha câmera agora fazendo uma adaptação do Ulisses.
Boteco (achando que o cineasta está zoando comigo) - Do Ulisses?
Ivan - É, o Ulisses do James Joyce. Uma adaptação literária mesmo. Passatempo. Como te falei, sou predestinado. Quando tinha 19 anos, conheci os irmãos Campos, virei parceiro do Haroldo, do Augusto, do Décio Pignatari, do Rogério Sganzerla, do Hélio Oiticica. Hoje em dia, quando falam em artista, pensam em ator da Globo. Existem alguns atores da Globo que são artistas, mas não dá.
"Artista que recebe salário mensal não é artista! É vigarista!"
Boteco - O que é essa adaptação do Ulisses?
Ivan - Eu sou viciado em fazer filme super-8. Agora, com o vídeo, me reencontrei. É uma adaptação literária. (Pega a câmera MiniDv que o acompanha por toda a parte e mostra imagens filmadas das páginas de um livro; poderia dizer que reconheci na telinha da MiniDv a tradução do Antônio Houaiss para o texto joyceano, mas vocês não iam engolir essa, né?)
Boteco (ainda imaginando que o cineasta está tirando uma com a minha cara) - Está filmando o livro?
Ivan - É lógico. Não é assim que é uma adaptação literária? O cinema mundial está até hoje escravizado pela literatura e pelo teatro. O maior problema é a ignorância que as pessoas têm sobre o que é cinema. O Pedro fala isso porque ele não tem a menor noção do que é cinema. No set de Os bons tempos voltaram, o [produtor] Anibal Massaini foi comentar que ele ele era parecido com o Oscarito e o Pedro não sabia quem era. Tem que ver muita mulher nua no cinema! Tem que aplicar um tratamento nele!
Boteco (ainda intrigado com aquelas páginas filmadas) - O que é essa adaptação? Vai ser um filme?
Ivan - Se eu parar de trabalhar, ainda tenho uns dez longa-metragens prontos. Estou fazendo agora uma decomposição da imagem. Estou num nível um "pouco" superior. Conheci o Haroldo de Campos, não tenho culpa. Estou no andar de cima. O pessoal que está no andar de baixo discute se está nu, se não está nu. É pessoal que trabalha na TV Globo. Artista que recebe salário mensal não é artista! É vigarista! Rerrerrê.
Esse problema você não tem...
Ivan - Não tenho tela, não tenho emprego, não tenho nada. Não tenho rabo preso. Sou primo do Fernando Henrique mas nunca ganhei nada do governo dele graças a Deus. Ninguém pode falar nada de mim. Tenho as mãos limpas. Eu faço filme experimental, trabalho com soda cáustica e aguarrás. A mão fica bem limpa.
Ivan: "Se Hélio Oitica visse um banqueiro cineasta,
mandava logo para a putaquepariu"
(foto Bianca Alves)
Minutos após detonar meio-mundo na entrevista, Ivan é chamado ao microfone por Rubens Ewald Filho, coordenador da coleção Aplauso, para falar sobre o projeto. Aos berros, ele surpreende quem esperava um novo ataque contra tudo e todos:
— O problema é esse governo Lula. O negócio é Serra nele! Fora Lula! Viva Serra!
É difícil para minha cabeça visualizar algum ponto de contato entre a irreverência sacana dos filmes de Ivan com a caretice tucana. Talvez o cineasta que levou o tropicalismo para o cinema de horror tenha se fascinado com a aparência de José Serra, que nem precisaria de maquiador para protagonizar um remake de Nosferatu.
Ah, essa galera da contracultura, nossos vovôs rebeldes dos anos 60 e 70... Ao tentar levar a imaginação para o poder com sua revolução de classe média, quantos caminhos esquisitos percorreram no embate com a realidade. Glauber Rocha se encantou pelo general Golbery, a quem chamava de "gênio da raça". Arnaldo Jabor virou queridinho da nova direita. E Ivan Cardoso, o revolucionário das mãos purificadas pela aguarrás, o artista da contramão com farol apagado, rebelde sem rabo preso, estava ali. No quarto andar do shopping Frei Caneca, pedindo um viva para o governo que havia bancado sua biografia.




12 Meteram a boca:
É um recalcado
Fala Fausto blz?
Cara, eu escreveria uma biblia sobre esse assunto... Concordo com muitas coisas ditas pelo Ivan Cardoso e conheço alguns filmes dele... Irei postar um comentário sobre alguns dos temas ditos em meu blog...Depois da um pulo lá.
Abração!!!
Eu estava morando em Londres no ano passado e fui na exposição que o Ivan citou, inclusive rolou uma seção do filme novo e inédito Um Lobisomem na Amazônia.
E realmente tinha uma porrada de gringos para a exposição e para assistir o filme.
O tiozão é gente boa e trocamos uma idéia eu dizendo a ele que o Segredo da Múmia é um dos meus filmes preferidos (A cena da Regina Casé magrinha e peluda na cama com o careca Igor chupando a buceta dela é inesquecível) e ele me falou que estava querendo fazer o Sarcófago Maldito que era a continuação do Segredo... e pelo que vejo ele filmou mesmo, pena não ter saído comercialmente... já apoio ao Vampiro Serra é de doer, mas no resto ele tá é certo.
Belo depoimento, Slowdeat. O Ivan fez de fato um filme de 50 minutos chamado Sarcófago Macabro, que, até onde sei, não teve lançamento comercial.
E claro que você tinha que lembrar da cena com a Regina Casé peluda!
Hehe Fausto, realmente mulheres peludas são o meu fraco....
É isso confundi o nome do filme, Sarcófago Macabro e não Sarcófago Maldito, realmente ela não saiu comercialmente, vamos ter que garimpar ele por ai.
E sem puxasaquismos parabéns pelo Blog, um dos melhores na minha opinião.
Abç
Gostei muito. Mas o Ivan, personagem da sua entrevista, é muito diferente daquele chamado para encenar a realidade. Ele agradeçe a Deus por não ter recebido nada de FHC, mas bate palmas para o Serra. Esse cara tem mesmo filling para a sacanagem.
excelente entrevista.
teu blog é muito bom.
Texto impecável como sempre. Situações inusitadas como sempre.
Teu blog é foda!
Abração!
Ele tá certo em dizer que não come mulher dos outros, são os outros que comem as mulheres dele. Que o digam a Nina de Pádua e o Chico Buarque...
Grande entrevista Fausto, pra variar. Como você consegue tirar tudo isso em 10 minutos, cara??!!
Parabéns
Porra... ninguém comprou os filmes dele?? Queria muito "A Marca do Terrir" e "O Sarcófago Macabro"... Será que está vendendo em algum lugar???
Olá Fausto!
Faço parte de uma produtora de cinema e tv. Fazemos um quadro pro Metrópolis da TV Cultura, e ontem, no meio da pudica programação do canal 2, colocamos um libelo defendendo a saudosa pornochanchada.
Admitindo a grande influência que tive ao ler tuas ótimas reportagens/posts e tuas entrevistas, gostaria que desse uma olhada.
Espero que goste.
http://www.youtube.com/watch?v=i8lROWKftDI
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